A norma culta
BAGNO, Marcos. Por
que “norma”? Por que “culta”? In: BAGNO, Marcos. A norma oculta: língua e poder
na sociedade brasileira. São Paulo: Parábola, 2003, p. 39-70.
Ana Angelica Ribeiro Pimentel, Cleide Sacramento Lima dos
Santos, Drielle de Oliveira Andrade, Gleilza de França Freire, Marleide Almeida
Santos.
A palavra norma
geralmente acompanhada da palavra culta
circula nos livros didáticos, nas falas dos professores, nos textos
científicos, nas gramáticas etc. Mas afinal Norma Culta se refere ao normal,
real e frequente ou normativo, normas e regras impostas?
Bagno afirma, que por trás desse rotulo de Norma Culta encontra-se dois conceitos
completamente distintos no que se refere à língua falada e escrita. O primeiro
conceito é o que podemos chamar de tradicional, senso comum (maior circulação na sociedade), porém trata-se mais
de um preconceito do que de um conceito. É o preconceito de que existe apenas
uma forma “correta” de falar, forma essa prescrita a partir das regras da
gramática; que por sua vez baseiam-se exclusivamente na linguagem escrita de um
grupo de percentual mínimo da população, inspirados nos usos da linguagem das grandes obras literárias,
principalmente do passado e associam essa Norma
culta, ou Língua culta ou ainda Forma culta á escrita literária. O segundo
conceito é um termo técnico usado para designar a linguagem real dos falantes
cultos (definidos pelos critérios de escolaridade superior completa e vivência
urbana).
Podemos compreender melhor essa distinção de conceito
através da seguinte tabela:
NORMA CULTA
Normativo (regras, gramática)
|
NORMA CULTA
Normal (real, corriqueiro)
|
Inspirado na literatura “clássica”
|
Falantes cultos (nível de escolaridade superior
completo e vivência urbana)
|
Ligada à escrita literária, separa a fala da escrita
|
Manifesta-se na fala e na escrita
|
Venerada como verdade absoluta, imutável
|
Sujeita à mudanças ao longo do tempo
|
Quando se afirma que uma língua é culta,
automaticamente entende-se que as demais são incultas, logo, sem cultura,
ignorante etc., porém não existe indivíduo que não esteja inserido em uma
cultura, que não pertença a um meio social, que não tenha valores, crenças,
hábitos, costumes, preconceitos, língua etc. A questão é que o senso comum só
considera culto o que é proveniente de determinadas classes sociais, as classes
sociais privilegiadas. Sendo assim, para indicar as variações linguísticas de
falantes sem escolaridade superior completa, com pouca ou nenhuma escolaridade
proveniente de zonas rurais e/ou periferias, usa-se na literatura os termos língua popular, norma popular ou variedade
popular; criando assim a distinção entre norma culta e norma popular.
Diante desse conceito, Bagno (2003) afirma: “Chamar a língua dos falantes
plenamente escolarizados de norma culta é tão problemático quanto usar esse
rótulo para designar aquele ideal de língua abstrato, inspirado na literatura
do passado e nas prescrições da gramática normativa.”.
Então para distinguir os conceitos, Bagno
propõe novas nomenclaturas. Os dois primeiros conceitos recebem o mesmo nome,
mas apresentam-se absolutamente diferentes, então o autor propõe para as regras
gramaticais (o primeiro conceito) o termo Norma
padrão, pois norma delimita lei, regras impostas e padrão delimita modelo
arbitrário constituído segundo critérios de bom gosto vinculados a uma
determinada classe social. Para o termo técnico usado para designar a linguagem
real dos falantes escolarizados (segundo conceito) Bagno sugere o termo Variedade de prestígio, visto que o que
está em jogo é o prestígio social dos falantes dessa classe social favorecida,
dominante, ou seja, o que vem das classes dominantes é considerado bonito,
digno de ser imitado, de prestígio. E para designar a norma popular sem correr
o risco de identificar como errado, inculto ou inferior, a solução é o oposto
de prestígio, já que é a linguagem dos grupos sociais desprestigiados, então o
autor sugere o termo Variedade
estigmatizada.
Ao final do seu texto Bagno (2003) expõe sua
opinião sobre língua, poder e sociedade, onde afirma:
“A norma padrão está
estreitamente ligada à escola, ao ensino formal, e como no Brasil o acesso à
educação é mais um elemento que contribui para a nossa triste posição campeões
da desigualdade social, é fácil imaginar que a norma padrão tradicional tem
poder de influência praticamente nulo sobre os falantes das variedades mais
estigmatizadas. Assim mais uma vez, somos obrigados a reconhecer o caráter
esotérico da norma-padrão: só se aproxima dela (mas nem por isso a usam
integralmente) os brasileiros que conseguiram passar pelo funil da educação
formal e conseguiram percorrer até o fim todo o trajeto de sua formação
escolar. Embora a classificação das variedades seja importante para a análise e
o entendimento da complexidade sociolinguística do Brasil, nunca é demais
repetir que nas relações entre língua e poder o que realmente pesa é o
prestígio ou a falta de prestígio social do falante, e que esse critério muitas
vezes prepondera sobre os elementos estritamente linguísticos presentes em seu
modo de falar.”
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