quarta-feira, 22 de maio de 2013


A norma culta

BAGNO, Marcos. Por que “norma”? Por que “culta”? In: BAGNO, Marcos. A norma oculta: língua e poder na sociedade brasileira. São Paulo: Parábola, 2003, p. 39-70.

Ana Angelica Ribeiro Pimentel, Cleide Sacramento Lima dos Santos, Drielle de Oliveira Andrade, Gleilza de França Freire, Marleide Almeida Santos.



A palavra norma geralmente acompanhada da palavra culta circula nos livros didáticos, nas falas dos professores, nos textos científicos, nas gramáticas etc. Mas afinal Norma Culta se refere ao normal, real e frequente ou normativo, normas e regras impostas?
Bagno afirma, que por trás desse rotulo de Norma Culta encontra-se dois conceitos completamente distintos no que se refere à língua falada e escrita. O primeiro conceito é o que podemos chamar de tradicional, senso comum (maior circulação na sociedade), porém trata-se mais de um preconceito do que de um conceito. É o preconceito de que existe apenas uma forma “correta” de falar, forma essa prescrita a partir das regras da gramática; que por sua vez baseiam-se exclusivamente na linguagem escrita de um grupo de percentual mínimo da população, inspirados nos usos da linguagem das grandes obras literárias, principalmente do passado e associam essa Norma culta, ou Língua culta ou ainda Forma culta á escrita literária. O segundo conceito é um termo técnico usado para designar a linguagem real dos falantes cultos (definidos pelos critérios de escolaridade superior completa e vivência urbana).
Podemos compreender melhor essa distinção de conceito através da seguinte tabela:
NORMA CULTA

Normativo (regras, gramática)
NORMA CULTA

Normal (real, corriqueiro)


Inspirado na literatura “clássica”



Falantes cultos (nível de escolaridade superior completo e vivência urbana)

Ligada à escrita literária, separa a fala da escrita


Manifesta-se na fala e na escrita

Venerada como verdade absoluta, imutável

Sujeita à mudanças ao longo do tempo

Quando se afirma que uma língua é culta, automaticamente entende-se que as demais são incultas, logo, sem cultura, ignorante etc., porém não existe indivíduo que não esteja inserido em uma cultura, que não pertença a um meio social, que não tenha valores, crenças, hábitos, costumes, preconceitos, língua etc. A questão é que o senso comum só considera culto o que é proveniente de determinadas classes sociais, as classes sociais privilegiadas. Sendo assim, para indicar as variações linguísticas de falantes sem escolaridade superior completa, com pouca ou nenhuma escolaridade proveniente de zonas rurais e/ou periferias, usa-se na literatura os termos língua popular, norma popular ou variedade popular; criando assim a distinção entre norma culta e norma popular. Diante desse conceito, Bagno (2003) afirma: “Chamar a língua dos falantes plenamente escolarizados de norma culta é tão problemático quanto usar esse rótulo para designar aquele ideal de língua abstrato, inspirado na literatura do passado e nas prescrições da gramática normativa.”.
Então para distinguir os conceitos, Bagno propõe novas nomenclaturas. Os dois primeiros conceitos recebem o mesmo nome, mas apresentam-se absolutamente diferentes, então o autor propõe para as regras gramaticais (o primeiro conceito) o termo Norma padrão, pois norma delimita lei, regras impostas e padrão delimita modelo arbitrário constituído segundo critérios de bom gosto vinculados a uma determinada classe social. Para o termo técnico usado para designar a linguagem real dos falantes escolarizados (segundo conceito) Bagno sugere o termo Variedade de prestígio, visto que o que está em jogo é o prestígio social dos falantes dessa classe social favorecida, dominante, ou seja, o que vem das classes dominantes é considerado bonito, digno de ser imitado, de prestígio. E para designar a norma popular sem correr o risco de identificar como errado, inculto ou inferior, a solução é o oposto de prestígio, já que é a linguagem dos grupos sociais desprestigiados, então o autor sugere o termo Variedade estigmatizada.
Ao final do seu texto Bagno (2003) expõe sua opinião sobre língua, poder e sociedade, onde afirma:
“A norma padrão está estreitamente ligada à escola, ao ensino formal, e como no Brasil o acesso à educação é mais um elemento que contribui para a nossa triste posição campeões da desigualdade social, é fácil imaginar que a norma padrão tradicional tem poder de influência praticamente nulo sobre os falantes das variedades mais estigmatizadas. Assim mais uma vez, somos obrigados a reconhecer o caráter esotérico da norma-padrão: só se aproxima dela (mas nem por isso a usam integralmente) os brasileiros que conseguiram passar pelo funil da educação formal e conseguiram percorrer até o fim todo o trajeto de sua formação escolar. Embora a classificação das variedades seja importante para a análise e o entendimento da complexidade sociolinguística do Brasil, nunca é demais repetir que nas relações entre língua e poder o que realmente pesa é o prestígio ou a falta de prestígio social do falante, e que esse critério muitas vezes prepondera sobre os elementos estritamente linguísticos presentes em seu modo de falar.”